UM DESFILE QUE VEIO PARA FICAR

Noite cerrada e muito vento. De súbito, despontando do Porton di Nos Idja, irromperam os archotes: vinham em fila indiana, começando a descer a encosta a partir da Fortaleza de S. Filipe, que foi baluarte na defesa dos assaltos dos corsários que se acoitavam nas ilhas de Maio e S. Vicente para acometer as armadas portuguesas e espanholas que cruzavam o Atlântico, carregando as “quintaladas” até à Europa. A Ribeira Grande de Santiago era singradoiro obrigatório nessas rotas.

mailgooglecom1A longa fila desdobrou-se, prolongou-se pelo “caminho velho” que liga a Fortaleza à Cidade Velha pelo Bairro de S. Sebastião. Hoje é quase um caminho de cabras, mas a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago pretende restaurá-lo para fazer dele uma referência cultural e turística. Uns sessenta archotes iluminavam a marcha de mais de duas centenas de crianças e jovens e batucadeiras que lentamente avançava para o histórico burgo que foi o berço da nacionalidade cabo-verdiana. Não havia luar. Apenas breu cerrado e as chamas dos archotes. Lindo de se ver aquela serpente de fogo “escorregando” pela encosta.

Fotografia do portal de notícias "Liberal" http://liberal.sapo.cv. Reproduzida com a devida vénia.

Começou assim a Festa do Santo Nome de Jesus (Nhu Santo Nomi) que decorre na Ribeira Grande de Santiago até dia 25. “Esta marcha inicial é uma ideia que veio para ficar. Vamos aprimorá-la e desenvolvê-la nos próximos anos. Para ficar quase como um ex-líbris da Festa. Vai de certeza tornar-se num dos atractivos. Esta primeira experiência foi positiva, tiramos ensinamentos, agora é preciso trabalhá-la”, disse um elemento da Comissão Organizadora. De resto, a Festa do Santo Nome deste ano traz inovações diversas que tendem a caracterizá-la. “Pretendemos que, no futuro, seja uma das referências da ilha de Santiago, atraindo mais e mais forasteiros. Vamos ser Património da Humanidade e a Festa cada vez mais responderá, pela sua grandeza e dignidade, a essa dimensão”, este o propósito da Comissão Organizadora que, no ano do reconhecimento da Cidade Velha como Património da Humanidade, quis explorar todas as potencialidades, desbravando caminhos.

Aos poucos, a criançada foi chegando. O vento amainara, os archotes irromperam pelo Largo do Pelourinho/Rua do Calhau: recordava-se o antigamente, quando não havia electricidade e as gentes percorriam os caminhos iluminados pelas tochas. Simbolicamente, assim se ilustrava também como as novas gerações, a geração dos construtores do futuro, irrompem da noite da História para trazer ao presente a “revelação” daquela que foi a primeira cidade construída por europeus a sul do trópico de Câncer, sendo depois um importante entreposto do tráfico negreiro, uma das chagas da História da Humanidade. Aqui emergiu a crioulidade.

Acabado o desfile, houve batuco. As batucadeiras envolveram Manuel Monteiro de Pina, presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago, e ao ritmo das palmas cantaram-lhe loas.

Foi assim o primeiro dia da Festa de Nhu Santo Nomi.