O balanço de uma Festa que fica no roteiro cultural da ilha de Santiago

SANTO NOME DE JESUS, NA CIDADE VELHA, GANHOU ESTATUTO

A Festa colocou na ordem do dia algo que certamente vai fazer correr muita tinta: o IIPC, pela voz de Jair Fernandes, anunciou estar a ser preparada uma proposta parta a Cidade Velha que muito limitará a soberania da autarquia e o valimento do voto popular: nas suas linhas gerais, a gestão do espaço ficará a obedecer à tutela do IIPC, portanto do Ministério da Cultura (Governo), ficando praticamente marginalizada a Câmara. Desde logo, foi contraposta a experiência de duas cidades Património da Humanidade (Évora, património há 22 anos, e Gorée): José Ernesto de Oliveira, presidente da Câmara de Évora, explicou que no seu município, tal como decorre do poder democrático, a soberania é da Câmara; a Comissão para o Património é liderada pela Câmara; acontece, e bem, que nada pode ser feito no vasto espaço urbano qualificado, sem prévio parecer vinculativo do Instituto do Património Cultural. No fundamental, o mesmo modelo acontece em Gorée.

Cidade Velha, 26 Janeiro – Com solenes celebrações religiosas, como devia de ser, a Festa do Santo Nome de Jesus acabou ontem. Desde dia 17, a Festa do Santo (ou do Santíssimo) Nome de 2009 foi uma sucessão de eventos que fazem dela um dos mais importantes acontecimentos culturais da ilha de Santiago. Como referiu a Liberal um dos organizadores, foram a “festa do Povo e da Cultura”. E este bem pode ser o lema a servir de bandeira a este certame. “Do Povo” porque, sobretudo no sábado e ontem, foram largos milhares que convergiram para a Ribeira Grande de Santiago. Vieram de outras localidades daquele Município, como vieram da Praia, de Assomada e até do Tarrafal. “Da Cultura”, porque desde o primeiro momento a Cultura primou.

A homenagem prestada a Osvaldo Osório foi marcante. Crianças subiram ao palco para dizer poemas seus. Fátima Bettencourt, Corsino Fortes, Helena Lisboa, Valentinous Velhinho, David Hopffer Almada seguiram-se ou para sublinhar aspectos da obra de Osvaldo ou para lhe dizer poemas. Poemas de Osvaldo Osório que também foram ditos por Giordano Custódio e o neto. Para que o acto terminasse em beleza, Larissa Rodrigues arrastou para o palco a irrequieta miudagem que assistia e, lá de cima, todos ovacionaram o vate. A noite fria, açoitada pelo vento leste, aqueceu com esta homenagem à Poesia. No dia seguinte, Osvaldo Osório foi um dos dez distinguidos com o título de Cidadão Honorário da Cidade Velha.

A ELECTRA ESTEVE CONTRA

Um dos contratempos desta Festa do Santo Nome foi a decisão da ELECTRA em não considerar a importância do que estava a acontecer na Ribeira Grande de Santiago. Certamente, aquela empresa quis mostrar aos convidados estrangeiros os tormentos com que são castigados os santiaguenses e caprichou no apagão: bisou e trisou. Começou logo na eleição da Miss Ribeira Grande, que teve que ser suspensa porque a ELECTRA, com um apagão, anunciou a sua não estimada presença. Repetiu-se no Dia do Brasil, quando a exibição de cinema foi igualmente suspensa por falta de electricidade. E aprimorou-se no dia 23: o Fórum e a geminação com Gorée foram feitas ao som do ronco de um gerador, porque a ELECTRA optou por sabotar a Festa. E o Festival de sexta-feira só pôde ter início muito tarde, noite avançada, primeiro porque o apagão se manteve, depois porque a luz que chegou à Cidade Velha não era suficientemente potente para activar a iluminação do palco e a aparelhagem sonora. À última hora, a Câmara da Ribeira Grande de Santiago desencantou dois potentes geradores que permitiram que o Festival se realizasse.

Decididamente: uma vergonha mostrada aos convidados estrangeiros. A não colaboração, que a ELECTRA demonstrou, acabou por evidenciar a capacidade de resposta ao inesperado por parte da Comissão Organizadora da Festa.

NEM TUDO SE CUMPRIU

Se, no fundamental e segundo os organizadores, quase todos os objectivos pretendidos pela Festa foram atingidos, todavia houve falhas óbvias. A começar pela Feira de Produtos Locais, que era uma aposta forte: poucos produtores aderiram, essa a primeira razão. A segunda: terão levado sumiço os habituais stands da Câmara Municipal da Praia que, estava prometido serem emprestados à Ribeira Grande de Santiago. Ao que Liberal apurou trata-se de um episódio que pode pôr a descoberto mais um pequeno escândalo a envolver a passada gestão do Município da capital, onde “alguém” terá doado a “alguém”, como se propriedade privada fosse, um bem da Câmara.

Liberal sabe que, para resolver futuras situações semelhantes, a Câmara da Cidade Velha já está a tomar medidas para se dotar com este tipo de equipamento.

Outra falha: a Feira de Gastronomia. Seria um dos atractivos. A iniciativa, importante como factor de desenvolvimento turístico, frustrou-se ou por deficiência organizativa ou porque terão surgido alguns contratempos.

A SEGUNDA GEMINAÇÃO DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO

Durante a Festa do Santo Nome, celebrou-se a geminação de Gorée (Senegal) com a Ribeira Grande de Santiago. É a segunda geminação firmada por este Município cabo-verdiano: o primeiro foi com Guimarães, berço de Portugal; desta feita, Cidade Velha, ao geminar-se com outro importante centro histórico, que é Património Mundial, reforçou a sua candidatura ao reconhecimento pelo UNESCO. Fê-lo sob a égide de Évora, Património do Mundo há 22 anos, que nestas Festas anunciou o seu total apoio à candidatura da Cidade Velha. É um apoio relevante porquanto Évora desempenha hoje da rede ibérica das Cidades Património e vai ser este ano sede da rede ibero-americana. Deste modo, Cidade Velha pode começar já a entrar na rede internacional das cidades com história e dar um passo importante com vista a algo que é um objectivo nacional.

Observando os relacionamentos externos da Ribeira Grande de Santiago, deduz-se que estes seguem um fio orientador: não se trata apenas de, através da cooperação, recolher apoios materiais para a resolução dos seus problemas. Há sobretudo a intenção de obter visibilidade exterior para a Cidade Velha e, desse modo, ampliar apoios com vista a um objectivo estratégico. E, tanto quanto Liberal pôde saber, a Câmara da Ribeira Grande de Santiago não descurou a busca de apoios materiais para o seu desenvolvimento: de negociações com Lagos e Évora ficou a garantia de que virão importantes apoios, a ser conhecidos muito em breve.

Pedro Pires, na sua intervenção de sexta-feira, deixou o apelo a Gorée e à Ribeira Grande de Santiago para estenderam a sua fraternidade a Cacheu, na Guiné-Bissau. De facto, a história de Cacheu, feitoria fortificada, prende-se com as da Cidade Velha e de Gorée (antiga Palma) na trágica saga dos africanos escravizados. Tem cabimento a proposta, ficando apenas por saber a sua oportunidade.

OS CIDADÃOS HONORÁRIOS

Tal como a política de relações externas da Ribeira Grande de Santiago, os títulos de Cidadãos Honorários agora instituídos têm vista, segundo se deduz, intenções funcionais: aparentemente, a Câmara pretende com eles consolidar apoios e capitalizá-los para ajudar a desbloquear situações. Se assim é, trata-se de uma habilidosa medida, cujos resultados falarão por si. Para aqueles que em tudo apenas vêem cores partidárias e não entenderam que, deliberadamente, a Ribeira Grande de Santiago colocou o desígnio nacional (Cidade Velha Património da Humanidade) acima das facções e dos partidos – e isso ficou bem vincado nestas Festas -, as atribuições feitas poderão ser controversas. Mas analisando, verifica-se, que todas elas responderam mais a intuitos do que ao reconhecimento de méritos. Manuel Monteiro de Pina, na sua intervenção, deixou claro que muitas outras individualidades são merecedoras deste título e que, noutras oportunidades, o terão.

Cidade Velha passa a ter mais dez “Cidadãos”: Pedro Pires, Manuel Veiga, David Hopffer Almada, António Jorge Delgado, Álvaro Siza Vieira, Daniel A. Pereira, Osvaldo Osório, Augustin Senghor, Júlio Monteiro Barroso e José Ernesto de Oliveira.

UM INCIDENTE INFELIZ

A Festa do Santo Nome de Jesus, que reconhecidamente tomou uma dimensão inesperada para os próprios organizadores (de facto, surpreendeu tudo e todos e colocou problemas não equacionados que, no futuro, terão de ser resolvidos), ficou toldada pela infeliz opção da Comissão Organizadora em realizar o concurso das batucadeiras no espaço das ruínas da Sé Catedral. Foi uma escolha não ponderada, resultante da falta de infra-estruturas na Cidade Velha e das condições climatéricas desfavoráveis – ventos fortíssimos. Não contaram os organizadores com a reacção da Cúria da Diocese, que de pronto reagiu negativamente.

Haverá que ter em conta as especificidades dos lugares e as susceptibilidades que os envolvem, mesmo quando não haja a intenção de ofender os sempre subjectivos valores de terceiros. Podia e devia ter sido evitada esta mancha numa Festa que foi grandiosa e que tem condições (provou-o) para se tornar uma referência em todo o Cabo Verde e mesmo internacional – é esse o propósito anunciado pela Câmara.

De qualquer modo, tudo acabou em bem, com celebrações religiosas condignas, que tiveram lugar no domingo, chamando uma vez mais uma multidão à Cidade Velha.

A QUESTÃO DO PATRIMÓNIO

A Festa colocou na ordem do dia algo que certamente vai fazer correr muita tinta: o IIPC, pela voz de Jair Fernandes, anunciou estar a ser preparada uma proposta parta a Cidade Velha que muito limitará a soberania da autarquia e o valimento do voto popular: nas suas linhas gerais, a gestão do espaço ficará a obedecer à tutela do IIPC, portanto do Ministério da Cultura (Governo), ficando praticamente marginalizada a Câmara. Desde logo, foi contraposta a experiência de duas cidades Património da Humanidade (Évora, património há 22 anos, e Gorée): José Ernesto de Oliveira, presidente da Câmara de Évora, explicou que no seu município, tal como decorre do poder democrático, a soberania é da Câmara; a Comissão para o Património é liderada pela Câmara; acontece, e bem, que nada pode ser feito no vasto espaço urbano qualificado, sem prévio parecer vinculativo do Instituto do Património Cultural. No fundamental, o mesmo modelo acontece em Gorée. Não se percebe muito bem porque é que este modelo não pode ser aplicado em Cabo Verde, a menos que se entenda que os cabo-verdianos e os seus autarcas merecem o estatuto de menoridade e necessitem de tutelas. Ou a menos que, como logo se começou a dizer na Cidade Velha, haja nisto intenções segundas que se prendem com a política partidária. Daí a comparar-se esse projecto com o modelo inicial das ZDITs foi um passo.

É algo que vai entrar na discussão. Para já, Cidade Velha poderá em breve vir a reforçar o seu valor patrimonial e histórico com a criação de dois museus: um, anunciado pelo ministro Manuel Veiga, será o Museu de História, para o qual o Governo se compromete em buscar financiamento, devendo a Câmara disponibilizar o terreno; outro, um projecto que tem estado no segredo, que é a da construção de um Museu da Escravatura, para o qual decorrem negociações entre Ribeira Grande de Santiago e Lagos com vista a conectar este projecto com o do Mercado de Escravos, que vai ser desenvolvido na cidade algarvia. São projectos paralelos que até poderão ser convergentes se houver para isso entendimento. Não se perde que, para que a Cidade Velha seja um pólo cultural importante, receba dois museus. Mas dadas as conhecidas dificuldades e limitações financeiras do País, também nada se perderia se os dois projectos convergissem para um só.

Fonte:   http://liberal.sapo.cv

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