E AGORA, CIDADE VELHA?

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fonte: http://bonecadepapel.blogspot.com Reproduzida com a devida vénia

Realizou-se  na Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha) em 2 de Fevereiro a anunciada conferência de imprensa final relativa á edição deste ano da Festa do Santo Nome de Jesus  A par de uma reflexão significativa sobre a forma como decorreram as festividades, o documento de avaliação divulgado pela comissão organizadora (que divulgamos na íntegra) lança igualmente algumas pistas sobre possíveis direcções de trabalho futuras quer da Festa quer da própria estratégia de animação cultural e turística do município. No horizonte, a almejada classificação da Cidade Velha como Património da Humanidade, actualmente em avaliação na Unesco.

UM BALANÇO NECESSÁRIO

Concluída a Festa do Santo Nome de Jesus 2009, importa fazer o balanço do que ocorreu, enquadrá-lo num perspectiva mais ampla e tirar lições. A efeméride não foi só Festa. Foi muito mais do que isso. Insere-se numa visão do que é e do que será a Cidade Velha. E fica como um marco no reconhecimento e relevância deste centro histórico. É um balanço que aqui se deixa, onde se inscrevem algumas pistas que apontam à acção futura.

Assim:

1. É positivo o balanço que a Comissão Organizadora da Festa do Santo Nome de Jesus de 2009, e com ela a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago, faz dos festejos deste ano. Foram atingidos quase todos os objectivos definidos:

  • deu-se visibilidade à Cidade Velha, colocando-a no centro das atenções no ano em que se espera, convictamente, que a UNESCO a reconheça como Património da Humanidade;
  • construiu-se um evento com dignidade e dimensão correspondentes à importância deste centro histórico;
  • pôs-se de pé, e executou-se, em grande parte um programa, porventura ambicioso, que abarcou Cultura, Desporto, Actividades Económicas, Festivais de Música, Celebrações Religiosas.

Pretendia-se, e aconteceu, uma Festa multifacetada, que catapultasse a Festa do Santo Nome de Jesus a um dos grandes acontecimentos culturais da ilha de Santiago, senão mesmo de Cabo Verde.

2. Foi isto possível graças ao entusiasmo e envolvimento popular, tanto do Município como fora dele. E graças à “cumplicidade” (passe a expressão) da Comunicação Social, que indubitavelmente compreendeu o que se queria atingir e deu resposta amplamente positiva. A Comissão Organizadora da Festa e a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago estão-lhes profundamente gratas.

3. Foi também possível graças à excelente cooperação da Polícia Nacional que soube estar inteligentemente atenta e vigilante, sem excessos, mas com eficácia. A Festa primou pelo civismo e pela ordem pública, que são apanágio do povo da Ribeira Grande de Santiago. Não houve ocorrências negativas a registar, isto apesar de terem afluído largos milhares de pessoas à Cidade Velha. Apraz-nos afirmá-lo.

4. Na Festa deste ano foram ensaiados alguns eventos que vão ficar como parte integrante das próximas celebrações, definindo-se um modelo que terá continuidade e desenvolvimento.

  • São os casos do Desfile de Abertura, que será no futuro aprimorado e enriquecido;
  • da eleição da Miss Ribeira Grande de Santiago;
  • dos Festivais de Música, cujas características fundamentais ficaram definidas – genuinamente nacional, embora aberto a participação estrangeira; envolvendo o melhor da música do País e da Diáspora; e envolvendo a participação activa dos Municípios com os quais Cidade Velha mantém relações de cooperação;
  • do concurso-festival de batucadeiras, que são parte essencial da Cultura do povo da Ribeira Grande de Santiago – o batuco está na alma deste povo, entronca-se na sua origem e na sua história;
  • dos acontecimentos culturais: lançamento de livros, exposições, jornadas de debate. Queremos, no futuro, abri-lo mais ao cinema, ao teatro e alguns certames que reputamos necessários – talvez uma feira do livro; talvez um mini-festival de teatro; talvez uma grande mostra colectiva, um salão, de artes plásticas. São ideias sobre as quais já trabalhamos. Tudo isto está condicionado pela falta de infra-estruturas e pelas limitações orçamentais. No entanto, a Câmara Municipal da Ribeira Grande está apostada em pouco a pouco erguer essas infra-estruturas e, com a possível cooperação dos novos espaços turísticos que em breve serão inaugurados, talvez venha a ser possível concretizar estes sonhos;
  • da participação externa. Este ano tivemos a grata presença do Brasil, cujo Centro Cultural na Praia nos trouxe algumas actividades, abrindo caminho a uma cooperação que pretendemos desenvolver. Desejamos alargar esta participação a outros países, designadamente Portugal, Espanha e França;
  • o reconhecimento de Cidadãos Honorários, que destaque personalidades que, directa ou indirectamente, contribuíram para a valorização da Cidade Velha. Esta prática foi agora iniciada e terá continuidade. Apraz-nos que a iniciativa tenha sido, de uma maneira geral, aplaudida, pesem contudo algumas difusas incompreensões. No futuro, mais personalidades serão reconhecidas.

5. Houve falhas. Houve coisas que estavam programadas e não tiveram sucesso, o que ficou a dever-se sobretudo ao facto da dimensão da Festa do Santo Nome de Jesus ter de longe ultrapassado as expectativas mais optimistas e afundou a pequena estrutura organizativa sobre que assentava. Aprendemos que o modelo organizativo terá, no futuro, que ser diferente. O que falhou?

  • Tínhamos previsto, por exemplo, um festival gastronómico, já que consideramos a gastronomia como vector da nossa Cultura e parte importante da oferta turística que podemos apresentar. Não conseguimos realizá-lo. Para ultrapassar esta falha, a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago vai lançar a muito curto prazo as Iniciativas Gastronómicas para as quais desde já chamamos a vossa atenção;
  • Tínhamos previsto uma Feira de Produtos Locais, como incentivo ao artesanato e ao incremento das economias familiares. Falhou por escassez de respostas e por falta de stands onde a albergar. Falhou porque não houve adequada sensibilização das localidades para esta oportunidade que se pretendia criar. Entendemos que quem nos visita necessita de encontrar oferta, criando-se um mercado que em muito beneficiará as economias domésticas. Nesse sentido, a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago estuda neste momento como lançar esta ideia e este projecto.
  • A parte desportiva da Festa não teve dimensão correspondente ao que foi no seu todo a Festa de 2009. Iremos corrigir e, no futuro, apresentaremos um programa mais adequado e diversificado.

6. Serviu a Festa do Santo Nome de Jesus para colocar na ordem do dia a questão dos Patrimónios. É assunto actualmente em debate, para o qual pedimos a atenção da Comunicação Social. Há propostas e entendimentos não coincidentes, o que, em si, não é um mal. A Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago não abdica de ser reconhecida, até por legitimação democrática, como parte interessada e fundamental na solução que venha a ser adoptada. Trouxe-se à Cidade Velha a boa experiência havida no estrangeiro – designadamente em Évora e Gorée, que são Patrimónios Mundiais, e em Lagos, que tem um centro histórico importante. Entendemos que, em vez de inventarmos caminhos, processos e modelos, manda a inteligência que sigamos a experiência estrangeira, sobretudo quando essa experiência teve e tem resultados positivos. Aprendamos, pois, com os outros, até porque no passado já foram cometidos alguns erros significativos na apresentação da candidatura inicial da Cidade Velha a Património Mundial, como foi reconhecido no Fórum realizado. Entendemos também que, tendo em conta que esse património é uma alavanca fundamental para o desenvolvimento, o Município e o seu povo são os melhores guardiães e defensores desse património e, por isso, não podem nem devem ser dele alienados.

7. Foi também a Festa do Santo Nome de Jesus oportunidade para aprofundar relações de cooperação. Sê-lo-á sempre. À margem das celebrações, e em paralelo, decorreram negociações com as representações de municípios amigos. Para além do acordo de geminação com Gorée, que é Património da Humanidade, essas negociações trouxeram ganhos acrescidos para a Ribeira Grande de Santiago, que, por exemplo, vai receber do Município amigo de Lagos mais contentores de lixo e uma viatura de recolha. Ficou garantida também a oferta de equipamento diverso – desportivo, informático, etc. E igualmente o suporte de duas bolsas de estudo na Universidade do Algarve, a par de apoios à formação.

8. Nasceu nesta Festa a possibilidade de construção de um núcleo museológico na Cidade Velha. Pretendendo ser um pólo cultural da ilha de Santiago, este núcleo museológico será, no futuro, um dos seus pilares. Por iniciativa do Ministério da Cultura, anunciado pelo ministro Dr. Manuel Veiga durante o Fórum, está destinado para a Cidade Velha o Museu Nacional de História. Entretanto, a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago acalenta a vontade de erguer o Museu da Escravatura, para o que encetou negociações com a Câmara Municipal de Lagos, que apoia este projecto, o qual poderá concatenar-se com o Mercado de Escravos daquela cidade, cujo Município pretende recuperar. O projecto do Museu da Escravatura depende muito da cooperação internacional que se encontrar, mas será algo a que a Câmara Municipal da Ribeira Grande dará particular atenção.

Entretanto, e também juntamente com Lagos, irá surgir uma revista de investigação cultural e histórica que tentaremos viabilizar ainda este ano.

Como se observa, a Festa do Santo Nome de Jesus foi muito mais que uma festa.

9. No nosso ponto de vista, pelos seus resultados e pelas portas que abriu, a Festa do Santo Nome de Jesus foi um bom investimento. Podemos desde já dizer, mesmo não estando ainda encerradas as contas, que custou menos do que foi inicialmente perspectivado. Para o seu financiamento concorreram a patrocinação, a cooperação e o orçamento da autarquia. Houve apertado rigor no controlo dos custos, tendo-se procurado tirar o máximo proveito de cada escudo investido. Não houve mãos largas. Gastou-se justamente o necessário e indispensável. Entendemos a razão de ser de alguns reparos: o Município tem graves carências a que se impõe acudir e para as quais a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago está atenta. Todavia, temos presente que o desenvolvimento tem custos e é multifacetado. E pelo que começa já a transparecer dos resultados atingidos com a Festa, afirmamos que se tratou de um investimento rentável.

10. Ficou a Festa também marcada por um desentendimento, felizmente já ultrapassado, com a Igreja Católica. Podia ter sido evitado e era bom que o tivesse sido. A Câmara Municipal da Ribeira Grande considera a Igreja Católica, até pelas razões da História deste centro secular, parceira da Cidade Velha e comparte do valioso património existente. Defende por isso que numa Comissão de Gestão do Património que, à semelhança do que acontece em importantes cidades estrangeiras, deve ser liderada pela Câmara Municipal, a Igreja Católica tenha lugar destacado, uma vez que grande parte desse património, recuperado ou a recuperar, tem origem na sua História religiosa. Mas, se isto defende, a Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago também não abdica da promoção dos valores culturais do seu povo e rejeita que quem quer que seja os intente denegrir. Para a construção da Cultura que se respira neste Município contribuíram componentes diversas: o contributo da Igreja Católica foi valioso, em extremo. Mas não foi o único. A Ribeira Grande de Santiago será inevitavelmente cooperante activa com a Igreja Católica, a quem dá e dará todo o apoio, com o respeito pleno pela sua identidade e missão. E requer para si o mesmo respeito pela sua identidade.

Comissão Organizadora da Festa do Santo Nome de Jesus

Cidade Velha, 2 de Fevereiro, 2009

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